quinta-feira, 8 de março de 2007

O julgamento é seu

As pessoas confundem "Bife ali na mesa" com "Bife à milanesa". Francamente falando, é fácil você saber quando uma pessoa mente e quando ela fala a verdade. É fácil você saber quando as pessoas valem a pena e são seres humanos de caráter real ou quando são de caráter duvidoso. É fácil saber quando as pessoas tem brio e quando são mesquinhas.Fico contente que meu blog agora esteja aberto aos meus amigos leitores para os seus demais comentários. Por que a partir de agora realmente o que escrevo vai penetrar fundo na alma dos que entendem a vida e dos que querem fazer da vida uma completa balbúrdia. Um completo inferno de Dante.Hoje acordei um pouco melhor do que ontem. Ontem eu ainda tive dúvidas se valia a pena a atenção de alguém. Hoje eu tive certeza...de que não valia. E isso fez minha consciência respirar. Isso fez o piano pesar como uma pena.As pessoas que para se "safarem" tiram o seu ... da reta, prá mim não tem brio, não tem caráter e valem muito pouco no quesito "gente". Parte disso é a própria mentira que querem infundir nos outros, como se nós fôssemos os culpados pelas suas atitudes intrínsecas, ou como se fôssemos meninos, ou idiotas, ou pior ainda: insistentes, coisa que não somos.Quem perde com isso? Quem não tem brio e não é honesto. Quem tem problema de personalidade. Aliás, quem perde com isso é quem nem mesmo tem personalidade. Tem pouco de gente.Com esse tipo de pessoa, não vale a pena a amizade, o amor e a alegria da convivência.É um pesar que o mundo ofereça pessoas assim ainda para o nosso convívio.Quanto às culpas, deixemos que o tempo as demonstre.Não há necessidade de pressa... e nem de falatórios.Há necessidade no mundo de mais honestidade, e mais sinceridade.Porém, me resta o sentimento de pena de quem não age com escrúpulos.Isso me faz lembrar em muito a política do mundo: corrupta, suja e ilegal.Eu sei que eu sim, sou eu mesmo, aqui ou no japão.Quantos aos outros, como dizia a grande intérprete Paula Toller: " os outros são os outros...e só!"

quarta-feira, 7 de março de 2007

A FALTA DE INFORMAÇÕES É O QUE GERA O PRECONCEITO

Sinceridade, as vezes me falta paciência pra aceitar a imperfeição dos outros. Mas não posso culpar as pessoas, culpo a falta de informação. A falta de preparo. A falta de educação. E isso a gente observa no dia a dia, indo ao Banco e enfrentando uma fila. Lidando com amigos, clientes e companheiros de profissão, e assim por diante.As vezes eu me pergunto qual a dificuldade das pessoas em aceitar sugestões. Parece que aceitar sugestão diminui alguém. Me lembrei com isso de uma ocasião em que sugeri a um senhor em Belo Horizonte utilizar a faixa de pedestre. Ele me dirigiu palavras lindas e maravilhosas que se você lesse aqui, nem entraria mais neste modesto blog. Mas ele era um senhor, que vivia na capital há pelo menos uns 50 anos e estava acostumado a atravessar a rua naquele lugar errado todos os dias. Naquele dia o trânsito estava intenso e então não deu certo ele atravessar. Mas não sei por que cargas d´água aquele senhor não aceitou minha sugestão. Preferiu ficar lá, esperando por pelo menos mais meia hora para atravessar a Avenida Afonso Pena do que andar uns 150 metros e atravessar a faixa. Bom, mas volto a insistir...era um senhor, e eu posso entender que se sentisse diminuído ou até ofendido em ouvir alguém mais jovem dizer-lhe o que fazer.Agora quando ouço alguém que tem a vida inteira pela frente para aprender simplesmente renegar a uma sugestão, aí realmente acho puro preconceito. E não é a uma ordem: é sugestão mesmo. Aí isso me fere. Me deixa sem paciência com vontade de rasgar a boca no mundo e mandar todo mundo se catar.Bom, nem sempre é prudente. Nos meus 36 anos de experiência aprendi que não é prudente. E não é mesmo!Sendo assim, calar a boca e deixar que cada qual veja por si que o que disse nem sempre é o ideal, certo ou o correto, é imensuravelmente melhor. É preciso paciência pra isso. Mas é o melhor.Sendo assim, quem sabe o meu apêlo para que as pessoas se informem mais estando registrado aqui seja até mais produtivo do que tentar falar com elas. Penso que no caso destas pessoas mesmo do alto do nosso pedestal é preciso descer um minuto, prá ouvir a ralé, os plebeus, os indigentes.Não me tomem por dramático. É que dizendo assim, e só assim devo imaginar que as pessoas possam entender que nesse mundo tão ligado pela comunicação, pela informação em tempo real. É exatamente neste mundo informado que a falta de informação é o que mata!

terça-feira, 6 de março de 2007

Pequena dissertação de fim de caso

O amor tudo perdoa. Até a falta do próprio amor. E hoje me sinto mais maduro para perdoar o engano em ti.
Foi com muita tristeza que falei com você ao telefone naquele sábado fatídico. Apenas me certifiquei que nossos valores eram e são diferentes. O que é um sentimento puro pra mim não passa de um envolvimento qualquer pra você. Uma brincadeira de paixonite “teen”. Ouvir você não levar em consideração nenhuma palavra que eu falava ao telefone por estar absorta na sua “chacrinha” particular e querendo disfarçar para os seus amigos a nossa conversa foi a gota d’água. Doeu profundamente. Ver que a sua atuação diante deles era de quem estava conversando com alguém meio insistente, meio besta, fez-me compreender que afinal de contas, eu não era tão importante assim. E que enfim, a maturidade emocional ainda está longe de você. Aliás, triste constatação, mas, convenhamos, o que sou eu diante de uma eternidade de amigos não é mesmo? Perdoe a ironia, mas ela se faz imprescindível diante da minha pesarosa conclusão. Pesarosa, mas necessária! Imputante, mas ao mesmo tempo importante! É perceptível que seu coração ainda não está maduro para o amor. Ele não está pronto. Você ainda não desvendou essa lacuna no sentimento humano. Porém, isso não te faz uma pessoa pior. Apenas despreparada. O que necessariamente não significa que será assim para sempre. Isso é normal em um período de nossa vida. E você é um ser humano como qualquer outro. Tenho a mais absoluta certeza que não será para sempre. Por que afinal, você é superior. E acima de tudo, é esperta e inteligente. Vai chegar lá. E isso será grande motivo de alegria pra mim. Digo sem hipocrisia, e sem a ponta de ironia da frase anterior. Ficarei e estarei feliz nesse dia. Mas por hora, deixemos que a vida siga seu rumo. Deixemos que ela própria assuma a direção e tome o leme. Não quero me tornar em sua vida como os outros relacionamentos. Um estica-encolhe, um vai-e-vem, um termina-começa que vai se arrastando como uma serpente peçonhenta consumindo com o veneno dela nossas vidas e nossas alegrias. A minha proposta não foi essa. É preciso descomplicar, facilitar, deixar leve e fazer fluir. Para isso é preciso envolvimento, é preciso vontade. Isso sobra em mim, mas falta em você. Quem sabe a famosa “química” no amor de que tanto falam e tanto dizem não aconteceu, não é mesmo? É preciso compreender isso. Compreender e sobretudo, aceitar. Não quero fazer acusações, como se a culpa fosse somente tua. Não. Em um fim de relacionamento existirão sempre motivos bilaterais, e certamente em algum momento eu também fui errado. Em cobrar ou pedir, em sufocar ou até mesmo deixar transparecer uma pitada de ciúme. Nós sabemos que o ciúme corrompe e atrapalha. E nunca é bom pra ninguém. E ele pode ter sido o grande responsável pelo sonho ter-se desfeito ou desabado.
Mas enfim, é bom também lembrar o que de positivo aconteceu.
A mim resta o consolo supremo de que marquei sua vida. Sou feliz por isso e por saber que por onde passo, deixo coisas boas às pessoas que me rodeiam, e as pessoas as quais também quero rodear. E sei que deixei coisa boa em seu coração. Contribuí para que de alguma maneira você pudesse compreender o real humanismo cheio de sinceridade. Meu coração é sincero. Disso você jamais terá dúvida. Jamais. Pus o telefone no gancho naquele sábado com a leveza de um ser puro, firme e confiante de ter feito a sua parte. Sim, a minha parte, fiz.
E a sinceridade deste meu coração poderá produzir bons frutos. Poderá ser capaz de te conduzir. De te dar uma candeia no breu, para que com ela você possa seguir sua trilha em busca da tal felicidade, que, tenho certeza, não tardará. Isso é o lado bom das experiências em nossas vidas.
Bem, está na hora de dormir. A noite já vai longa e não terminará logo. Pelo menos não pra mim.
Estou de consciência limpa de que enfim fui honesto, fui sincero e fui amigo.
Agora resta ao tempo encarregar-se de deixar que a amizade perpetue. Que ela perdure e seja enfim uma grande aliada de nossas vidas.
Com certeza nos encontraremos. Com certeza. Não digamos adeus.
Digamos até breve.
Beijos fraternos.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Palavras que alimentam a vontade (ou a verdade)


Foi boa esta última tarde. Foi proveitosa. No céu eu sentia que a chuva parecia querer dar o ar da graça. Mas ela só quis. Não veio. O tempo estava mesmo colaborando conosco. Queria fazer uma gentileza. E assim fomos fazendo aquilo de que mais gosto. Conversávamos. E foi bom ouvir algumas coisas que você tinha a dizer. Essa nossa conversa também revelou que eu não era enfim tão gente como você achava. Acho que demonstrei até meu lado meio bicho. Pitoresco até. Mas de qualquer maneira, a tarde foi assim cheia de muita conversa. E isso é que deixou tudo melhor. O sol as vezes nos assistia. Acho até que nos observava de verdade, com olhos e tudo. Mas qual nada. Tímido, recuava e escondido, nos deixava em paz. A sombra debaixo da árvore na porta da sua casa nos protegia e nos enchia de vigor. E enquanto isso, nós falávamos... de tudo. E sorríamos... e íamos nos estudando. Realmente, como há muitos anos não acontecia. Eu gostei. E você, será que gostou? Será que apreciou a companhia de um homem velho, cheio de excentricidades e esquisitices que a idade e os cabelos brancos impõem?Mas o tão importante nesta tarde no fim do verão é que nós conversamos. Até termos mais vontade de conversar. O tempo passou, os compromissos ficaram para depois, mas a nossa conversa percejou. A nossa prosódia soergueu e aludiu. Esparramou. Fizemos calo na boca, de tantas palavras balbuciadas. Nos esquecemos que afinal éramos um homem e uma mulher cheios de vigor, de objetivos e esperança. De aspirações também. E estávamos ali, defronte a rua e prontos para o mundo. E de frente um para o outro. Você com um rosto infantil que a vida lhe propôs ter, e eu, com a experiência que a vida acresceu-me ao longo dos anos. Eu acho que fui contagiado pela sua juventude, e de certa forma te deixei um pouco mais velha no fim de tudo. Foi uma troca, você me deu força, e eu te dei sabedoria. Mas nos esquecemos que as pessoas passavam, tamanha era a nossa avidez pelo nosso embate falante. Elas íam e vinham para os afazeres da vida e nós permanecíamos ali como se nada acontecesse, como se o mundo não existisse ou como se ele fosse só nosso. Atuávamos como donos do próprio mundo. Quiçá do universo, quem sabe. Afinal, aquela conversa revelou que podíamos tudo. Que bom! Falamos de tudo um pouco. Do mundo, dos livros, de festas, de alegrias, de choro, da maldade na língua das pessoas, do carnaval, dos amores esquecidos, do amor atual, e da necessidade de ser razão e coração ao mesmo tempo.Cheguei a conclusão de que esta tarde foi preparada. Desenhada. Feita na medida para que soubéssemos um do outro. E soubemos. Que bom! Pelo menos soubemos. Era isso que importava. Novamente, que bom! Talvez desta tarde surja alguma coisa. Não se sabe ainda o quê! Mas pra quê saber? O que interessa mesmo é que houve uma tarde. Houve fala. Houve mesmo conversa. Houve um momento entre nós. E isso já é o bastante pra deixarmos as coisas seguirem seu curso natural. Não sei onde vai dar, mas será em algum lugar. Talvez surja alguma coisa no horizonte, mas caso não surja, esta tarde proporcionou sim uma grande descoberta para nós. Já valeu. Por isso, será elegantemente intitulada e imortalizada como Tarde dos Sonhos. Será assim... e será para sempre.Que bom!

Nada talvez seja tudo


E um vazio insiste em tomar conta. Por mais que eu saiba o que é correto, a saudade grita mais alto. É mais forte. O vazio talvez seja o resultado da ausência do teu espírito em mim. É um vazio pesado. É maior e é tamanho que não existe dimensão para defini-lo.É um oco. Um vão. É só. Solidão.A definição de sua ausência é a tristeza reinante. A agonia que toma conta de um ser afetado pelo modo insípido de encarar a vida.O dia foi insípido. Arrastou como se não passasse. Como se não quisesse chegar ao fim. Teimou em não acabar. E você teimou em não passar junto com ele. E não passou. Na mente. Na cabeça. Nos cabelos. Desgrenhados. Não os penteei. Não quis. Eles representam o protesto. A linguagem do meu lamento por ti. Pela sua inexistência. Ausência. Ou simplesmente... sua partida do meu diário vivo.Sim. Ter você está cada vez mais distante. Ao menos sua companhia tem se tornado um risco diário. Um perigo rondando a porta. Sendo assim, é melhor prosseguir no mar da vida como uma nau sem rumo. Sem o seu corpo presente. Pois que seja sem você. Sua companhia é sinônimo de sofreguidão. De insegurança e ao mesmo tempo de lamúria.É hora de reconhecer o fracasso.Já não é mais dia. É noite. Enfim, foi o próprio dia que me arrastou até aqui. Apenas para chegar a exaustiva conclusão de que a disputa teve um fim. Ela foi vencida pelos meus inimigos, meus rivais ou simplesmente meus companheiros de luta. Não sei. Sei que meus ombros pesaram. Como se eu carregasse um piano. Estou cansado. De correr para você e ao mesmo tempo ver que você já não existe. Já não ocupa o mesmo lugar. Não é mais onisciente em minha vida.Deitei-me. Rezei. Fechei meus olhos e como num aceno, dei meu ultimo adeus à sua sombra. É hora de dormir e deixá-la do lado de fora dos meus sonhos. E ao mesmo tempo em que sonhar, vou acordar sentindo que estou dormindo no vazio das suas lembranças.Boa noite. Dorme bem. Fica bem.Eu velo por ti.Talvez em qualquer lugar, possamos um dia reencontrar o elo perdido. A fagulha que faltava. Para só assim descobrirmos o prazer que a felicidade dá aos amados e amantes quando a entrega é ambígua.Amém.

A trilha dos trilhos dos sonhos


Uma brisa matinal passeava lentamente sobre o lago azul celeste que havia atrás da casa de adobe próximo a estaçãozinha de Pires. Era uma casa abandonada. Não tinha sido assim no passado. Um dia aquilo tudo ali já tinha sido movimentado. Em algum tempo um borbulhar de pessoas trançavam aqueles trilhos de um lado para outro como se fosse um ninho de formigas. Homens trabalhando, mulheres falando da vida alheia e crianças recostadas nas muretas das casas brincavam de pique-esconde ou de porta bandeira. Tudo ali fervia de vida e de poder de espírito. Mas hoje, estávamos diante de uma velha casa recostada com dormentes podres em suas paredes tentando deixar existir o que parecia querer avidamente desaparecer. Mas, olhando copiosamente a centenária construída de barro e cal, nós refletíamos saudosamente e seguíamos em frente no balanço e nos solavancos dos vagões. Como se fosse um compasso de música aquele balançar parecia nos ninar naquela tarde gostosa de setembro. E olhávamos bem atentos à locomotiva lá na frente fazendo a curva primeiro do que o compartimento onde estávamos. A música tocava, o trem serpenteava e os desencontros dos vagões soava como uma valsa profunda que nos confundia e fazia-nos chorar, sorrir e pular de alegria ao mesmo tempo. O sol dava o ar da graça naquele crepúsculo e assim lançava seus raios fazendo o céu ter uma face multicor. Um misto de azul e vermelho com um amarelo refletido bem ao centro, por baixo, como se fosse um colchão d`água recostado na colina verde que refletia a sombra das densas nuvens no fim do dia.E assim íamos nós de encontro à nossa juventude. O barulho permanecia como música nos ouvidos. Lá bem ao longe alguns bois pastavam intactos, incólumes, intocáveis. Pareciam estátuas brancas do tempo. Fixos. Imóveis. Só se fizéssemos muito esforço a nossa visão conseguia captar um imponente garrote de chifres pontiagudos abanando o grosso rabo para se livrar de alguma mosca que o incomodava no lombo. Mas tinha que se cerrar demais os olhos para enxergar isso. E nós não queríamos enxergar nada que não fosse o vulto da nossa meninice.Era assim...O balanço seguia...Te-dé, te-dé, te-dé!!!Foooooooooooooooommmmmmmmmmmm!!!!Nossa!!!! A locomotiva buzinou como se estivesse dando um grito de desespero na frente.Será que havia passado por cima de algum animal distraído no meio dos trilhos? Isso era comum nos tempos de criança. Agora, queríamos ser de novo como na época das travessuras. Alvoroçamos como guris inquietos e curiosos. Mas, qual nada, era só um bando de reses que haviam se descambado desfiladeiro abaixo perto da ponte sobre o riachinho, amedrontadas ao serem perseguidas pela serpente gigante com cabeça vermelha que se avizinhava em cima das duas linhas pretas e metal-brilhantes que haviam se estabelecido na “ruralidade”.E o balanço seguia.Junto àquele balanço a cabeça agora emaranhava minha vida.Lembranças tênues enchiam a massa que cobria o invólucro osseóide que me pertencia, e que preenchia meu ser. Naquelas recordações, imagens do meu pai vieram . Sua sombra estava como que ali caminhando ao meu lado. Na verdade, era mesmo do lado do trem. Andando, bem devagar e com a cabeça bem erguida, olhando o horizonte, como era seu costume fazer. Um das mãos na cintura, e a outra apontando a serra verde bem depois do campo de flores na frente do curral. O dorso nu, e uma camisa de flanela jogada nos ombros, reclamando o calor abrasador que o astro-rei lançava na atmosfera parda. Sim....ali estava ele, como se quisesse dizer que aquele campo era o mais belo dos campos que já vira. Era como se eu o ouvisse dizer que ao alcançar sua velhice queria viver num lugar assim, bem defronte ao lago. Ele havia repetido isso muitas vezes na sua trajetória.É!!! Era ele, eu podia quase ver. Eu podia praticamente enxergar seus dois metros de altura e sua silhueta imponente adquirida desde os tempos em que era um exímio jogador de futebol. Ele acenava, e se despedia como se fosse viajando também pelo tempo. Eu estava mesmo vendo. E assim como a lembrança veio, assim se foi. Era como se caminhasse bem devagarinho em direção ao nada. Desapareceu, ao embrenhar-se com as nuvens e com o horizonte que passava, que caminhava de encontro ao nosso andante.E o trem seguia.A cidade já mostrava seus contornos. Alguns casebres já se aventuravam em aparecer, como se timidamente quisessem nos dar boas vindas. Afinal, estávamos chegando. A locomotiva diminuía seu compasso. A música chegava ao término. Ficava mais lenta.Tudo ficava mais triste. Os amontoados de residências e pessoas no crescente nos avisavam que o passado tinha ficado pra trás. Agora era mesmo passado. Só lembrança. Mas que bom, que ótimo que existia em nós um passado, um presente e quem sabe, um futuro.Acabou-se a música, acabou-se a viagem.Mas não acabou a esperança. E a vontade de dar prosseguimento a alma que estranhamente insiste em ir adiante, como se o futuro fosse eterno, e como se as pessoas que fazem parte da história jamais morressem. O trem parou. Era Montes Claros. Chegamos. Acabou-se a odisséia.Descemos. Agora era hora de voltar ao mundo, à realidade grotesca, feita de carne e osso, mas com mais osso que carne. Foi-se embora o trem. Levou nossa vida. Levou o passado. Levou a memória. Levou as lembranças. Levou o horizonte. Levou a nostalgia. Levou a música.Mas nos deixou alegres, com a alma revigorada e pronta pra mostrar ao mundo que ainda somos gente, existimos. E que temos o que contar aos nosso filhos e aos nossos netos.Adeus, trenzinho! Leva tudo mesmo. Mas não esquece de, com o som do seu apito e seu serpentear pelos trilhos, avisar a quem atravessar o seu destino que a vida não é só isso. Ela é muito mais, porque permite a cada ser humano sonhar.E é de sonhos que se constrói o mundo. É de sonhos que vivemos lembrando o passado, e é de sonhos que levantaremos as paredes do futuro.Adeus meu trenzinho! À Deus, trenzinho!...

Traquinagens de Moleque-1

Era com ansiedade que eu olhava para o
fim da rua. Afinal, A mãe ia dobrar a esquina e eu estaria livre pra chamar o
Léo. A Juju ia ficar a tarde toda na casa de Liane, e o Mel, esse não tava nem
aí pra mim. Só queria saber de escutar música com Aline a tarde
inteira.Pronto...um, dois e...zás!!! A mãe virou....Iupiiiiii... Agora eu já
estava pronto. Corri como um louco pra dentro de casa, atravessei o portão e fui
surpreendido pela Chitara. Ela veio com toda força e colocou suas patas
dianteiras bem em cima de mim. Nossa!!! Ela de pé era maior que eu. Como era
linda, assim em pé. Pêlinho alvo e bem baixinho. Ah...a mãe não deixava ela sem
tomar banho toda semana...tratamento vip! E era remédio pra carrapato, e era
vermicida, e era shampoo pra caspas... Às vezes tinha a impressão de que ela era
mas bem cuidada que eu. Xiiii...me distrai, tinha que ir chamar logo o Léo,
afinal, nosso tempo era curto. A mãe logo estaria de volta.Deixei Chitara vir
correndo atrás de mim, e de um salto, subi no tanque e debrucei no muro. A
música que o Mel tava ouvindo de dentro do quarto estava me atrapalhando chamar
o Léo. Mas mesmo assim, insisti!- Léeeeooo!!! Onde está você?Nada!!! Ninguém
tinha ouvido nada... resolvi arriscar mais um pouco e ficar de ponta de pé no
tanque, com o pescoço quase alcançando a mureta que separava nossa casa.
Insisti.- Léooo???.. Mas gente, o som que vinha de dentro de casa estava muito
alto. Desci do tanque e Chitara já estava pronta pra correr atrás de mim de
novo...ai meu Deus! Como era difícil me desvencilhar daquele animalzinho
implicante. Mas, depois de levar duas quedas por ficar trançado com ela, me
recuperei, abri o portão e ganhei a rua...Pronto, ia agora diretinho na casa do
Léo, e agora podíamos aproveitar aquela tarde antes da mãe chegar das compras.
Agora dava pra ele me ouvir. Num pulo, ganhei a rua...agora sim...ihhhh!!!!
Esqueci de fechar o portão. A Chitara veio atrás de mim. Ai meu Deus! Tenho que
colocar essa cachorra pra dentro. Ela não é bravia, mas causa medo. Um cão fila
sempre causa medo em outros pelo tamanho e pelo latido. Mas, quando me voltei,
não percebi que distraído e ao mesmo tempo preocupado com o dia de trabalho que
se aproximava de sua metade, afinal, eram apenas duas da tarde, vinha um
bicicleteiro, é, isso mesmo, um bicicleteiro, como meu pai costumava chamá-los.
Ele só se deu conta de que estava diante da Chitara a menos de um metro dela.
Zás!!!! Ele conseguiu sair fora da cadela que a mamãe cuidava com tanto carinho.
Mas, nesse desespero de sair fora, me achou pelo caminho. Ai meu Deus! Quem viu
aquele episódio deve ter ficado muito assustado. Nos embolamos no meio da rua,
eu, o bicicleteiro e a Chitara. Ninguém sabia quem era quem. Estávamos
entrelaçados, os três.O bicicleteiro levantou assustado.- Que é isso, guri! Tá
louco! E tira essa cachorra de cima de mim!Bem que eu tentei, mas meu braço não
obedecia, e pior...doía!!! Ai, como doía!!!Nessas alturas, a rua ficou
abarrotada de gente. Vizinhos e curiosos corriam pra saber o motivo do estrondo
que tinham ouvido. Isso é comum e normal de acontecer. Um amontoado de gente em
volta de um pobre coitado acidentado. Eu só não tinha me dado conta de que o
pobre coitado, neste caso, era eu. Dona Geni, veio correndo da casa dela,
esbravejando como era de costume.- Tito! Tito! Meu filho, o que aconteceu?...Eu
não sabia, só sabia que sentia muita dor.Seu Arquilino da venda, também largou
tudo e veio me socorrer.- O Braço dele está roxo, olha aí dona Geni.Pronto, Foi
o suficiente pra eu perceber que havia algo de errado.A este ponto do
acontecido, alguém já havia ligado pro meu pai e ele estava chegando. Segundo
fiquei sabendo depois, a minha mãe nem mesmo chegou a ir até as compras. Meu pai
a encontrou no caminho e colocou logo dentro do carro pra voltarem. Eu não
estava entendendo muito bem. Só sabia de uma coisa. Cada hora que passava meu
braço doía cada vez mais e parecia não caber mais na camiseta amarela que eu
usava, agora toda suja de poeira.O bicicleteiro ligava no orelhão para a sua
firma.Os garotos da rua de baixo já estavam todos amontoados em cima de mim, e
dona Geni gritava...- Saiam de cima, seus moleques arruaceiros. Tragam um copo
d’água pra ele! Toma meu filho. Levanta!Dona Geni simulou pegar o meu braço.
Nossa!!! Agora doeu, doeu de verdade. E a máxima do meu pai de que homem não
chora desta vez não valeu. Eu não consegui. Por mais que tentasse, não havia
jeito. A dor era mais forte do que o homenzinho que eu achava que era.Bem. com
todo esse alvoroço, quem se aproximou de mim foi o Léo. E me disse, até meio
preocupado...- E aí, "cajaca" ( esse era meu apelido ) o que tá havendo?- Não
sei, "cabeça", acho que machuquei o braço. O bicicleteiro me pegou quando fui te
chamar na sua casa. Te chamei pelo muro mas você não ouviu. O Mel tava ouvindo
som muito alto.Nossa!!! Naquele instante percebi que o Mel estava dentro de
casa, era melhor chamá-lo. Pedi a Dona Geni que o chamasse. Ela atendeu
prontamente, mas saiu resmungando:- Diacho de menino mais distraído, o irmão
quebrou o braço e ele, ouvindo música. Xiiii!!! O que era quebrar o braço? Mas
meu braço estava no lugar. Por que ele estaria quebrado? O Mel chegou, meio sem
jeito. Acho que Dona Geni deve ter falado umas palavras meio amargas.- Que foi
isso, Tito! Pelo amor de Deus, a mãe disse que era pra eu olhar você. E agora o
que vou dizer pra ela? Aline saiu logo atrás meio sem graça. O pai encostou com
o carro e a mãe chegou junto com ele. Ela olhou pro Mel mas não disse nada. Ela
era assim, não fazia escândalo. Ia acertar as contas mais tarde com ele. O Pai
me apanhou com muito jeito.- Guri Valente, esse meu rapaz! Agüenta até a dor de
um braço quebrado!Ahhhhh! Como era bom ouvir o velho falando isso pra mim. Me
senti um homenzinho de novo. Até parei de chorar.O pai me colocou no carro,
enquanto a mãe trazia uma roupinha pra mim. O Mel veio tentando ajudar com um
sorriso amarelo no rosto, mas a mãe ralhou com ele.- Olhe a casa, Melquisedeque,
se não pode olhar nem o Francisco, se preste ao menos a olhar a casa enquanto o
levamos ao pronto socorro.Coitado do Mel, tudo que ele não gostava era de ser
chamado de Melquisedeque. sei que ele ia ficar muito chateado com tudo isso.
Então resolvi ajudar.- Pode deixar Mel, eu vou voltar são e salvo, assim você
não se sente assim desse jeito.- Qual é, maninho, vai mesmo. Eu fico esperando
você. Vou fazer logo aquela vitamina de banana que sei que gosta. Tomaremos
juntos assistindo ao Jaspion na TV, tá?Fomos pro hospital. Acenei um tchauzinho
com o outro braço para o Léo que me olhava atentamente do outro lado do vidro do
carro e me acenou como quem quisesse desejar boa sorte.Vi meu pai conversando
com o bicicleteiro. Ele agora ia embora com sua bicicleta com os raios
empenados, a roda murcha como uma flor fora do vaso, e o guidão torto de dar dó.
Ele ia levando sozinho essa bicicleta pela rua e ainda disse algo parecido assim
quando passamos por ele, acho que consegui ler nos lábios: “ Calma Guri! Tu és
um garotinho muito valente!”...Eu fiquei com dó do bicicleteiro.Dona Geni
colocava a mão sobre a boca e seu Arquilino caminhava tranqüilamente pra
Mercearia da esquina. O Mel levou a Chitara pra dentro de casa.Tudo parecia
voltar ao normal.Só aquela dor que não passava.Mal sabia eu, que por conta do
que hoje sei ser uma traquinagem de criança, ia ficar quase um mês com um gesso
branco no meu braço e sem poder fazer o que eu mais gostava: traquinagem de
criança...